quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Minha vida é um livro, ou melhor, um Facebook aberto: Para quem escrevemos?


“Escrevia um diário contando as coisas mais íntimas do meu dia. Dizia a alguém que não existia os meus maiores segredos, dividia os meus maiores medos e anseios. Não queria compartilhá-los com ninguém, só comigo.” (Dona Letícia, 72 anos).

“Fui à festa ontem. MUITO SHOW! Vou divulgar pra geral e marcar todo mundo nas fotos no Facebook.” (Adolescente comentando no Twitter).

O ato de escrever costumava ser relacionado ao autoconhecimento, ao imprimir no papel os sentimentos e opiniões sobre o mundo. No século XVII, quem escrevia era escritor, o clero, e até, as meninas que liam romances realistas para desfrutarem, mesmo que apenas nas páginas daqueles livros, o amor. Escrever era mais do que uma forma de expressão e extensão do ser, era uma libertação das amarras dos bons costumes, era subversivo, um ato que merecia ser posto de lado, pois moças e rapazes não poderiam escrever sobre amor de forma mundana, aliás, de forma nenhuma. O amor visto nos diários eram vistos como uma prática masturbatória. Os pais não queriam que seus filhos e filhas lessem tais abominações.

Pior do que ler era produzir, escrever tais insinuações. Colocar no papel sob a luz de velas, o que passava pela cabeça das donzelas principalmente era quase crime, por isso elas faziam questão de desenvolver seus escritos, seus diários íntimos escondidos. Os cadernos eram tão bem guardados, que só se escrevia para o papel, como se a caneta e o caderno fossem confidentes, amigos mais fieis. Só se podia confiar neles e em mais ninguém. O escrever desse tempo, era libertador, mas uma liberdade simples, que só era permitida para quem sabia escrever. Em pleno século XVII e XVIII não havia muitas pessoas com acesso à alfabetização. Essas pessoas que mantinham seus diários, eram livres naqueles momentos de uma liberdade solitária. No entanto, o valor dessa liberdade modificou-se: O íntimo tornou-se éxtimo e essa liberdade relatada dessa época solitária ainda são consideráveis prisões para os padrões atuais.

 A internet e todo o aparato da web 2.0, nos traz a ideia de que todo o mundo está conectado e que todos os seres humanos precisam se conectar também, formando uma aldeia global como já dizia Marshall Mcluhan. Imagens, vídeos, textos, podcasts, absolutamente tudo se perde no mar revolto e em constante crescimento que é a internet. Saber navegar no mundo digital leva tempo e torna-se mais complicado do que qualquer viagem de Cabral com sua nau. O digital é “o esperanto das máquinas”, como disseram Pierre Lévy e Lúcia Santaella; um conjunto de códigos binários que traduzem numa língua só todos os anseios da humanidade e sua vontade de tornar público o que antes era íntimo.

Esse fenômeno recente vem modificando alguns paradigmas impostos no passado como: o íntimo era para as páginas do diário e os heróis eram apenas os protagonistas dos romances. Hoje isso mudou, todos são protagonistas de diversas histórias contadas em tempo real no mundo digital. Esses “heróis” contam a todo momento o que fazem, o que querem, o que não gostam entre outras ações menos heróicas. A audiência torna-se ainda maior, pois o realismo é real e não produto da mente de um escritor num conto ou num livro. E esses personagens reais são acompanhados em tempo real, quando a história perde o interesse ou quando o herói perde a graça, o espectador (que inclusive interage com esse protagonista) deixa de segui-lo, dando o famoso “unfollow” nas redes sociais.

Então, para quem escrevemos realmente? Depois de perceber a mudança de gostos e de costumes na vida da sociedade, que se chega à conclusão que o ideal e aparentemente normal é a literatura éxtima, ou seja, aquela que deixa de ser íntima para tonar-se pública como se fosse a forma de impressão de ideias e sentimentos mais normal que há. O livro aberto agora foi escancarado sem pudor, “lenço ou documento”. Histórias íntimas contadas aos sete ventos são vistas aos montes na web 2.0. Antes as meninas, donas dos diários proibidos, não podiam pensar em ver seus escritos publicados para não causar nenhum inconveniente. Enquanto isso, dois ou três séculos depois a razão para escrever é oposta. Não se escreve para deixar guardado. Tudo deve ser compartilhado e dito a todo momento. A liberdade nesse caso, nessa nova realidade, é divulgar-se, dizer a todos as suas opiniões e “curtir” o que for do agrado do usuário ou deletar o que não gostar.

O jogo da comunicação desse século tem outras regras, novas ferramentas e uma liberdade confundida com anarquia. Para o bem ou para o mal, todos têm voz... E muitos dedos para “teclarem”. Não precisa ir longe para encontrar essa nova sociedade ligada em rede ou para entender como ela funciona, basta clicar em “curtir”, aceitar um convite de amizade ou compartilhar um link, para ler um diário da vida de alguém, ou melhor, um Facebook de um amigo.

Renan Barreto, jornalista e ex-aluno da Universidade Candido Mendes.

0 comentários:

Postar um comentário

 
Powered by Blogger