A equipe do blog da UCAM fez uma entrevista com a historiadora Janaína Botelho, que lançará seu segundo livro “Histórias e Memória de Nova Friburgo”, no dia 13 de Setembro, no Centro de Arte, na Praça Getúlio, Vargas em Nova Friburgo. Fique sabendo em primeira mão o que a autora propôs em sua mais recente obra e descubra as curiosidades de um livro que promete trazer cultura e boas histórias a todos.
BLOG DA UCAM: Quando surgiu a ideia de tornar os seus artigos em uma compilação como essa?
JANAÍNA BOTELHO: A ideia do livro surgiu quando percebi que, depois de escrever durante dois anos para o jornal A Voz da Serra, a compilação das matérias, atendendo a uma cronologia, ganhava organicidade, e conseguia dar conta de narrar uma breve história sobre Nova Friburgo, passando pelos séculos XIX e XX.
BDU: Como se deu o processo de coleta de informações?
JB: As fontes são: a correspondência oficial, jornais da época, crônicas, fotografias, além de fontes secundárias. Utilizo, igualmente, a memória dos habitantes locais, que nasceram entre 1915 e 1940, entrevistas essas que vão desde um executivo de uma grande fábrica até o cidadão comum, mostrando suas visões de mundo e de que forma perceberam e vivenciaram os acontecimentos do passado.
BDU: O livro foca a história a partir da percepção de pessoas comuns. Você acredita que esse seja o diferencial da publicação?
JB: A valorização de cidadãos comuns como atores históricos não representa nenhuma novidade. Foi iniciada pelos franceses a partir do segundo quartel do século XX, através da Escola de Anales. Mas no que tange à história local, mais precipuamente a História de Nova Friburgo, acredito que eu seja uma das poucas historiadoras que entram nesse território. Adoro esse exemplo de um dos historiadores que segue essa corrente. Ele diz mais ou menos isso: “Não estou interessado apenas sobre a vida de Júlio César. Mas me interesso, também, pelo que pensa e como age um soldado da legião de Júlio César.”
BDU: Quando nasceu a sua paixão pela história?
JB: Infelizmente, não posso atribuir aos meus professores a minha paixão de história. O ensino de história não era nada atraente há uns 40 anos. Acho que gostar de história é algo nato e tem que ter paixão, pois a pesquisa é árdua, laboriosa, cara, repleta de obstáculos e não há resultado financeiro.
BDU: O que é mais difícil, ouvir as histórias que as pessoas têm para contar ou "traduzir" este material bruto em texto?
JB: Certamente “traduzir”, ou melhor, reapresentar, o material bruto em texto. A narrativa histórica é um aspecto essencial, pois tem que ter clareza, objetividade, isenção na análise dos fatos, além da problematização dos acontecimentos históricos. Considero a história como algo vivo, sempre mutante, pois volta e meia surgem novas fontes que são capazes de invalidar grandes teses. Mas considero isso parte de nosso cotidiano.
BDU: O livro segue uma linha cronológica dos acontecimentos e assuntos ou segue a linha das publicações das colunas?
JB: Como disse acima, procurei colocá-las atendendo a uma cronologia que vai desde o final do século XVIII, com ocupação dos Sertões do Macacu, passando pela fundação da vila de Nova Friburgo, em 1820, e acontecimentos ao longo do século XIX. Já no século XX, vou aproximadamente até a década de 1960.
BDU: O que Nova Friburgo tem de especial para você?
JB: Nasci em Nova Friburgo e isso facilita para o historiador local desenvolver uma pesquisa. Passei parte de minha infância, nas férias, em diversas cidades do centro-norte fluminense. Isso foi fundamental para que eu me sensibilizasse de que a história de Nova Friburgo passa pela história regional. Muitos historiadores locais têm negligenciado essa circunstância, ou seja, deixado de destacar o centro-norte fluminense como parte do contexto da história de Nova Friburgo.
BDU: Percebe-se que é um trabalho cuidadoso e feito com carinho, quanto tempo levou para produzir esta obra?
JB: Essa obra é fruto de um trabalho de pesquisa desde 2005. Mas as pesquisas têm um tempo, muito em função da disponibilidade e dos recursos financeiros do pesquisador.
BDU: Há uma passagem do livro que queira compartilhar conosco?
JB: Na tragédia ocorrida em Nova Friburgo, entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, passei a escrever diversas matérias sobre como o friburguense lidava com esse sinistro no passado, consultando o código de posturas. Lembrei-me de uma passagem do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, sobre uma enchente nos primeiros anos de assentamento dos suíços. Surpreendi-me relendo essa passagem, de como a enchente desestruturou a colônia dos suíços, já que perderam toda a sua colheita naquele ano. Isso provocou homicídios, estupros, agressões físicas, etc. o que denota que as enchentes são um problema na região desde os tempos de antanho.
BDU: Qual foi o fato mais importante contado no livro?
JB: Não vou dizer que seja a mais importante, mas surpreendeu-me que a matéria que fiz, por ocasião do dia de finados, intitulada “A história dos cemitérios em Nova Friburgo”, teve uma repercussão notável. Nunca imaginaria que contar uma história sobre cemitérios despertaria tanto interesse da população. Até hoje não consigo entender como um tema tão funesto (risos) provocou tanto interesse entre os leitores do jornal.
BDU: A Europa tem uma forte ligação com a cidade. Você fala a respeito disso?
JB: Certamente, ao final do século XIX, ocorre o fenômeno da “europeização” das elites brasileiras. Em Nova Friburgo não foi diferente. Até porque estávamos próximos do Rio de Janeiro e os cariocas passavam seis meses em Nova Friburgo, permanecendo enquanto a epidemia de febre amarela não cessasse no verão. Temos ainda que considerar que tivemos colonos suíços, alemães, além de imigrantes italianos e portugueses, que auxiliaram a compor esse cenário que Braudel denominou de “falsas Europas”.
BDU: Qual é a sua avaliação do livro?
JB: O maior mérito desse meu livro foi destacar a história regional e a valorização das memórias de antigos moradores de cidade. No mais, contribuo com a história local em que, felizmente, Nova Friburgo já possui uma historiografia razoável e de qualidade, graças à iniciativa de diversos historiadores a exemplo de João Raimundo, Jorge Miguel Mayer, Ricardo Costa, José Carlos Pedro e é claro do suíço, Martin Nicoulin.
BDU: Há ideias para uma próxima publicação ou teremos que esperar?
JB: Na realidade, já estou escrevendo o terceiro livro. É sobre o século XIX, em que procuro suprir uma lacuna na história de Nova Friburgo, ainda não preenchida. Muitos historiadores se limitam à primeira metade do século XIX e depois as pesquisas dão um salto de décadas e iniciam no período republicano. Logo, fica a seguinte pergunta: o que aconteceu com Nova Friburgo depois do fracasso do Núcleo Colonial, atividade-fim para o qual o município tinha se constituído? É essa resposta que pretendo dar a Nova Friburgo no seu aniversário de 200 anos.
BLOG DA UCAM: Quando surgiu a ideia de tornar os seus artigos em uma compilação como essa?
JANAÍNA BOTELHO: A ideia do livro surgiu quando percebi que, depois de escrever durante dois anos para o jornal A Voz da Serra, a compilação das matérias, atendendo a uma cronologia, ganhava organicidade, e conseguia dar conta de narrar uma breve história sobre Nova Friburgo, passando pelos séculos XIX e XX.
BDU: Como se deu o processo de coleta de informações?
JB: As fontes são: a correspondência oficial, jornais da época, crônicas, fotografias, além de fontes secundárias. Utilizo, igualmente, a memória dos habitantes locais, que nasceram entre 1915 e 1940, entrevistas essas que vão desde um executivo de uma grande fábrica até o cidadão comum, mostrando suas visões de mundo e de que forma perceberam e vivenciaram os acontecimentos do passado.
BDU: O livro foca a história a partir da percepção de pessoas comuns. Você acredita que esse seja o diferencial da publicação?
JB: A valorização de cidadãos comuns como atores históricos não representa nenhuma novidade. Foi iniciada pelos franceses a partir do segundo quartel do século XX, através da Escola de Anales. Mas no que tange à história local, mais precipuamente a História de Nova Friburgo, acredito que eu seja uma das poucas historiadoras que entram nesse território. Adoro esse exemplo de um dos historiadores que segue essa corrente. Ele diz mais ou menos isso: “Não estou interessado apenas sobre a vida de Júlio César. Mas me interesso, também, pelo que pensa e como age um soldado da legião de Júlio César.”
BDU: Quando nasceu a sua paixão pela história?
JB: Infelizmente, não posso atribuir aos meus professores a minha paixão de história. O ensino de história não era nada atraente há uns 40 anos. Acho que gostar de história é algo nato e tem que ter paixão, pois a pesquisa é árdua, laboriosa, cara, repleta de obstáculos e não há resultado financeiro.
BDU: O que é mais difícil, ouvir as histórias que as pessoas têm para contar ou "traduzir" este material bruto em texto?
JB: Certamente “traduzir”, ou melhor, reapresentar, o material bruto em texto. A narrativa histórica é um aspecto essencial, pois tem que ter clareza, objetividade, isenção na análise dos fatos, além da problematização dos acontecimentos históricos. Considero a história como algo vivo, sempre mutante, pois volta e meia surgem novas fontes que são capazes de invalidar grandes teses. Mas considero isso parte de nosso cotidiano.
BDU: O livro segue uma linha cronológica dos acontecimentos e assuntos ou segue a linha das publicações das colunas?
JB: Como disse acima, procurei colocá-las atendendo a uma cronologia que vai desde o final do século XVIII, com ocupação dos Sertões do Macacu, passando pela fundação da vila de Nova Friburgo, em 1820, e acontecimentos ao longo do século XIX. Já no século XX, vou aproximadamente até a década de 1960.
BDU: O que Nova Friburgo tem de especial para você?
JB: Nasci em Nova Friburgo e isso facilita para o historiador local desenvolver uma pesquisa. Passei parte de minha infância, nas férias, em diversas cidades do centro-norte fluminense. Isso foi fundamental para que eu me sensibilizasse de que a história de Nova Friburgo passa pela história regional. Muitos historiadores locais têm negligenciado essa circunstância, ou seja, deixado de destacar o centro-norte fluminense como parte do contexto da história de Nova Friburgo.
BDU: Percebe-se que é um trabalho cuidadoso e feito com carinho, quanto tempo levou para produzir esta obra?
JB: Essa obra é fruto de um trabalho de pesquisa desde 2005. Mas as pesquisas têm um tempo, muito em função da disponibilidade e dos recursos financeiros do pesquisador.
BDU: Há uma passagem do livro que queira compartilhar conosco?
JB: Na tragédia ocorrida em Nova Friburgo, entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, passei a escrever diversas matérias sobre como o friburguense lidava com esse sinistro no passado, consultando o código de posturas. Lembrei-me de uma passagem do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, sobre uma enchente nos primeiros anos de assentamento dos suíços. Surpreendi-me relendo essa passagem, de como a enchente desestruturou a colônia dos suíços, já que perderam toda a sua colheita naquele ano. Isso provocou homicídios, estupros, agressões físicas, etc. o que denota que as enchentes são um problema na região desde os tempos de antanho.
BDU: Qual foi o fato mais importante contado no livro?
JB: Não vou dizer que seja a mais importante, mas surpreendeu-me que a matéria que fiz, por ocasião do dia de finados, intitulada “A história dos cemitérios em Nova Friburgo”, teve uma repercussão notável. Nunca imaginaria que contar uma história sobre cemitérios despertaria tanto interesse da população. Até hoje não consigo entender como um tema tão funesto (risos) provocou tanto interesse entre os leitores do jornal.
BDU: A Europa tem uma forte ligação com a cidade. Você fala a respeito disso?
JB: Certamente, ao final do século XIX, ocorre o fenômeno da “europeização” das elites brasileiras. Em Nova Friburgo não foi diferente. Até porque estávamos próximos do Rio de Janeiro e os cariocas passavam seis meses em Nova Friburgo, permanecendo enquanto a epidemia de febre amarela não cessasse no verão. Temos ainda que considerar que tivemos colonos suíços, alemães, além de imigrantes italianos e portugueses, que auxiliaram a compor esse cenário que Braudel denominou de “falsas Europas”.
BDU: Qual é a sua avaliação do livro?
JB: O maior mérito desse meu livro foi destacar a história regional e a valorização das memórias de antigos moradores de cidade. No mais, contribuo com a história local em que, felizmente, Nova Friburgo já possui uma historiografia razoável e de qualidade, graças à iniciativa de diversos historiadores a exemplo de João Raimundo, Jorge Miguel Mayer, Ricardo Costa, José Carlos Pedro e é claro do suíço, Martin Nicoulin.
BDU: Há ideias para uma próxima publicação ou teremos que esperar?
JB: Na realidade, já estou escrevendo o terceiro livro. É sobre o século XIX, em que procuro suprir uma lacuna na história de Nova Friburgo, ainda não preenchida. Muitos historiadores se limitam à primeira metade do século XIX e depois as pesquisas dão um salto de décadas e iniciam no período republicano. Logo, fica a seguinte pergunta: o que aconteceu com Nova Friburgo depois do fracasso do Núcleo Colonial, atividade-fim para o qual o município tinha se constituído? É essa resposta que pretendo dar a Nova Friburgo no seu aniversário de 200 anos.


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