O professor Marcelo Nicolau, diretor do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Candido Mendes, concedeu uma entrevista ao blog da UCAM e comentou sobre como é a dinâmica do Centro, sua história e elucidou algumas questões em relação aos países conhecidos como orientais.
BLOG DA UCAM: O Centro de Estudos afro-asiáticos (CEAA) foi fundado em 1973, conte-nos um pouco de sua história.
BLOG DA UCAM: O Centro de Estudos afro-asiáticos (CEAA) foi fundado em 1973, conte-nos um pouco de sua história.
MARCELO NICOLAU: O CEAA foi integrado ao então Conjunto Universitário Candido Mendes em 1973. Sua origem remonta a 1961, quando fundado pelo professor Candido Mendes, vinculado à Presidência da República, no contexto da presidência de Jânio Quadros e reflexo de uma tentativa de política externa brasileira autônoma, voltada para o sul, principalmente para a comunidade lusófona africana. Por acumular importante acervo em obras bibliográficas e documentais, bem como em edição eletrônica, o CEAA tornou-se centro de referência fundamental para pesquisadores nacionais e estrangeiros. Esse acervo está disponível aos estudiosos pela Biblioteca Pio X, da Universidade, que o conserva e administra. Essa biblioteca é, também, a depositária da documentação da Memória Negra, que informa a trajetória afro-brasileira a partir dos anos 1970. Em 1978, o CEAA criou a Revista Estudos Afro-Asiáticos para divulgar trabalhos inéditos relacionados aos estudos africanos, afro-brasileiros, asiáticos e sobre relações internacionais. Implantou diferentes programas de cooperação com universidades e instituições africanas, e promoveu diversos congressos nacionais e internacionais.
Desde 1995, o CEAA oferece o curso de especialização em História da África e do Negro no Brasil, pós-graduação lato sensu, na modalidade presencial. Seu objetivo foi o de formar e capacitar professores a dar cursos introdutórios nas universidades brasileiras e incluir conteúdos da história africana e afro-brasileira nos programas das escolas de Ensino Fundamental e Médio. Posteriormente, passou a atender de forma pioneira às demandas geradas pela Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que incorporou nos currículos escolares essas temáticas.
BDU: Qual é o desafio de dirigir o Centro?
MN: Os desafios de dirigir o CEAA, pelo peso de sua história, acabam por se confundir, em escala reduzida, com os desafios apresentados pelo mundo ao Brasil. Temos um forte compromisso em estreitar as nossas relações com os povos asiáticos e africanos, assim como sempre tivemos um papel de destaque no resgate da cultura negra e na luta contra o racismo. Temos o desafio de formar pesquisadores, estimular a produção de conhecimento em língua portuguesa sobre o mundo e superar, gradativamente, uma limitação histórica do Brasil, que possui sua produção acadêmica majoritariamente voltada para si. Precisamos, justamente, desse “pensar o mundo”. A produção de conhecimento científico e acadêmico sobre a Ásia e a África, por exemplo, é quase uma exclusividade das antigas potências colonialistas, com grande destaque para a França. Uma redefinição do papel do Brasil nas relações internacionais não pode ignorar essa dimensão.
BDU: Como se dá a relação com os países africanos de língua portuguesa?
BDU: O Brasil é um país de grandes misturas étnicas, temos uma influência cultural africana muito forte, que passa pela linguagem, arte e religião. Qual é a visão dos países lusófonos de origem africana sobre o Brasil?
MN: O Brasil, enquanto primeira colônia portuguesa a conquistar a sua independência política, sempre serviu como exemplo e inspiração. Ao longo do século XX, o movimento modernista teve grande impacto sobre as elites intelectuais dos territórios de língua portuguesa, especialmente em Angola. É importante destacar que o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência das colônias portuguesas, sendo que em relação a Angola, reconheceu informalmente a independência do país, antes mesmo dela ser proclamada, assim como, foi o primeiro país a estabelecer relações diplomáticas com Angola. Vale destacar, também, o importante papel brasileiro na mediação da solução da guerra civil angolana. Na primeira década do século XXI, o Brasil assumiu um papel de destaque na comunidade internacional, atuando na política externa de forma autônoma e propositiva. O nosso país está fortemente comprometido com o esforço de reconstrução de Angola, e, mais recentemente, os investimentos agrícolas brasileiros em Moçambique foram destaque na imprensa brasileira e merecem ser acompanhados com especial atenção.
BDU: Em relação à China, que além de tudo é um dos BRICS assim como o Brasil, como é essa parceria e por que ela foi firmada?
BDU: O Japão é um país um pouco mais conhecido dos brasileiros, sobretudo pelo prisma cultural e tecnológico, como: videogames, mangás, teatro, animações, vestuário, música e etc. O brasileiro tem facilidade em adotar novos costumes, ou essas vertentes culturais nipônicas são efêmeras no país?
MN: O Brasil se firmou no final do século XX e durante a primeira década do século XXI como um importante polo internacional de consumo da indústria cultural internacional. Talvez sobre esse prisma seja mais interessante pensar a penetração de produtos culturais japoneses e a sua absorção pelas sociedade e mídias brasileiras. Nesse sentido, o Japão – um dos maiores exportadores de produtos culturais de alta tecnologia – aparece com bastante força no mercado.
BDU: Qual é a receptividade da cultura brasileira no oriente. O que mais chama a atenção dos orientais?
MN: Existe um grande problema conceitual sobre o que se entende por Oriente, vide os estudos do intelectual palestino Edward Said. Atualmente, existe uma vaga impressão do que se trata geograficamente como Ásia, que compreende desde a Turquia até a Malásia, com destaque para a geopolítica do Oriente Médio. Estamos muito carentes de estudos sobre o impacto da cultura brasileiras no "Oriente", que deve ser entendida em um plano maior como uma grande dificuldade da academia brasileira de "olhar para fora do Brasil". No entanto, é comum que o jornalismo brasileiro destaque essa influência sob dois principais pontos: 1) música e 2) esportes, com destaque para o futebol – com forte penetração nos países árabes.
BDU: Qual é o critério para que um artigo seja aprovado e impresso na publicação da CEAA?
MN: O CEAA possui como principal publicação a Revista Estudos Afro-Asiáticos (EAA), que eu e o professor Philippe Lamy estamos assumindo como editores. Sendo o mais antigo periódico de publicação ininterrupta brasileira sobre a temática (foi lançada em 1978), a revista sempre seguiu os critérios de seleção da excelência acadêmica. No mais, qualquer artigo enviado é avaliado por nosso brilhante corpo de parcerias quanto à pertinência da temática, à fundamentação teórica e à metodológica e ao ineditismo da pesquisa anunciada, avaliada ou esboçada. Além disso, estamos sempre abertos a parcerias no sentindo de viabilizar a publicação de estudos sobre as temáticas destacadas historicamente pelo CEAA, ou seja, divulgar trabalhos inéditos relacionados aos estudos africanos, afro-brasileiros, asiáticos e sobre relações internacionais.
BDU: Quais são as novidades que podemos esperar para este ano?
BDU: Quais são as novidades que podemos esperar para este ano?
MN: De imediato, estamos laçando um curso inédito no Brasil que é a pós-graduação lato sensu em História da África e do Negro no Brasil, modalidade EAD. É um curso que promete ter um forte impacto na história dos estudos afro-asiáticos do Brasil por sua amplitude espacial: é 100% on-line. Os encontros presenciais, previstos para ocorrerem apenas duas vezes durante a execução do curso, serão feitos com estrito sentido de avaliação do estudante. O curso na modalidade EAD é oferecido integralmente por meio da plataforma para Educação a Distância LMS (Learning Management System), ou seja, é disponibilizado integralmente por meios informáticos. O desenvolvimento do curso, a aprendizagem e a produção de conhecimento e de pesquisa se desenvolverão totalmente por meio do ambiente virtual e das múltiplas interações permitidas por esse poderoso instrumento.
Esse curso é o resultado direto de toda a experiência acumulada pelo CEAA na produção de conhecimento sobre a realidade africana e da negritude brasileira em seus 15 anos de pós-graduação lato sensu presencial em História da África, que, a partir de 2003, se tornou História da África e do Negro no Brasil. A elaboração e a construção desse curso levou três anos, e teremos a primeira turma da modalidade a distância iniciando-se já em 21 de setembro de 2011. Estamos extremamente entusiasmados com essa nova possibilidade que se abre e por podermos provar para o Brasil que se pode oferecer um produto de extrema qualidade, produzido com um rigor extremo, a amplos segmentos da população a custos acessíveis.
Até o final do ano, esperamos multiplicar os nossos esforços em qualificar professores e pesquisadores na temática afro-asiática, com novas pós-graduações lato sensu e a reedição de algumas publicações esgotadas do próprio CEAA.


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